O mundo sem conseguir respirar

George Floyd virou o símbolo da opressão pela pandemia, pelo racismo e pelo autoritarismo 'Não consigo respirar', diz cartaz de manifestante em Washington, nos EUA, em protesto após morte de George Floyd Jonathan Ernst/Reuters “Não consigo respirar.” A frase de George Floyd enquanto era assassinado pelo policial Derek Chauvin (sic) entrará nos livros de história como a melhor expressão do mundo sufocado.

Pela pandemia, mas também pelo racismo, pela violência policial e pelo autoritarismo, que surgem como reflexo condicionado de lideranças ineptas.

Não foi o novo coronavírus que desencadeou uma síndrome respiratória aguda e matou Floyd.

Não foi o ar viciado nos ambientes fechados das quarentenas.

Não foi uma máscara a tapar-lhe a boca e as narinas.

Foram os joelhos de Chauvin em seu pescoço.

Foi a violência racista daquele cujo dever era protegê-lo, não matá-lo. Manifestações em protesto contra o assassinato de Floyd tomaram conta dos Estados Unidos.

Nem todas pacíficas.

Em meio à confusão, parte da polícia preferiu atacar ou reagir com violência.

Outra parte se solidarizou com os manifestantes.

O presidente Donald Trump procura pretextos jurídicos para mandar o Exército investir não contra um inimigo externo, mas contra a própria população. O chefe de Estado Maior saiu às ruas fardado.

Trump usou o escudo de policiais e gás lacrimogêneo para dispersar manifestantes, reunidos pacificamente na frente da Casa Branca em desafio ao toque de recolher.

Atravessou a rua e foi brandir uma Bíblia, em gesto ridículo diante de uma igreja.

Quer classificar todos como baderneiros.

Invoca a preservação da ordem como mote, de olho na reeleição. O país, sufocado, testemunha cenas que estava acostumado a ver apenas naqueles lugares onde a democracia fraqueja, como Oriente Médio ou América Latina.

Lugares como o Brasil, onde a polícia fez questão, no último fim de semana, de atacar em São Paulo manifestantes que defendiam a democracia, poupando os que vociferavam em prol da ditadura e do fascismo. Trump e seu êmulo Jair Bolsonaro comandam os dois países mais atingidos pela pandemia.

É nítida a tentação de que se aproveitem dela para exercitar seus músculos autoritários e para tentar provocar uma ruptura na ordem institucional.

Mas também é nítida a inépcia de ambos para entender a dimensão do desafio. Uma pandemia não é apenas uma questão de saúde.

Como as guerras, paralisa a economia e desestrutura a sociedade.

Traz à tona, em cada país, os piores fantasmas, os acertos de conta mal-feitos ao longo da história, as tensões reprimidas sob o manto da civilização. Nos Estados Unidos, o racismo e a desigualdade.

Persistentes, a despeito das décadas de luta pelos direitos civis e da eleição de Barack Obama.

O ressentimento que elegeu Trump, a polarização política e o ódio latente irrompem num conflito de desfecho imprevisível. No Brasil, além de racismo e desigualdade, há ainda a inclinação autoritária de parcela da sociedade.

Persistente, a despeito das décadas de democracia e eleições livres.

Bolsonaro não chegou ao poder sozinho.

O apoio de setores como empresariado ou Forças Armadas revela um país ainda inseguro com as próprias escolhas. A solução fácil e tentadora de líderes como Trump ou Bolsonaro é tentar eliminar a diferença.

A confusão apenas os favorece.

Oferece o pretexto ideal para lançarem mão de coturnos e baionetas, para sufocarem o grito de revolta, qual o joelho de Chauvin sobre o pescoço de Floyd. Nada mais natural que quem esteja sufocado queira gritar para se libertar.

É preciso ouvir o grito e entender seu significado.

Também é verdade que gritar não resolve.

Em sociedades rachadas ao meio, será preciso instaurar alguma forma de diálogo – e só pode haver diálogo onde não há armas, onde todos se sentem livres para respirar.

Não há diálogo onde impera o ressentimento, onde as dores do passado continuam a comandar os atos do presente, a ditar os movimentos no futuro.

Ou bem entendemos que a democracia é a única forma de aplacar a angústia, de aliviar o sufoco e de permitir o convívio pacífico entre vozes discordantes – ou então estaremos, como Floyd, fadados à asfixia.

Nos Estados Unidos e no Brasil, é esse o maior desafio.

Nem Trump nem Bolsonaro estão à altura de enfrentá-lo.

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