Com renda familiar de um salário mínimo para cinco pessoas, educadora decide distribuir marmitas na periferia durante pandemia

Moradora de Mogi das Cruzes, Maria de Fátima tomou a decisão depois de ouvir o então ministro da Saúde, Henrique Mandetta, dizer que era importante ter uma alimentação equilibrada para melhorar a imunidade.

Na época, apenas um dos três filhos do casal estava trabalhando.

Maria de Fátima distribui marmita para pessoas em situação de rua na Vila Estação em Mogi ds Cruzes Maria de Fátima Paulino/Arquivo Pessoal Na balança da educadora social Maria de Fátima Paulino, de 53 anos, o amor e a solidariedade pesaram mais que o orçamento curto e a falta de emprego.

A moradora de Mogi das Cruzes ficou preocupada no início de março ao ouvir o então ministro da Saúde, Carlos Henrique Mandetta, dizer que era importante ter uma alimentação equilibrada para ter imunidade e chances de sobreviver a pandemia do novo coronavírus que já era vislumbrada chegando ao Brasil.

Mesmo com a limitação de um salário mínimo para viver com o marido e três filhos, Fatinha, como é mais conhecida, decidiu pegar os alimentos que tinha em casa e fazer marmitas para pessoas em situação de rua que vivem no bairro Vila Estação.

O local já foi considerado uma favela, mas passa há alguns anos por um projeto de reurbanização.

“Fiquei pensando que tinha que fazer alguma coisa.

Esse pessoal não se alimenta.

Se esse povo não comer eles vão morrer”, lembra Maria de Fátima. Educadora social realiza projeto para ajudar pessoas em situação de rua De lá para cá a vida da família mudou e para melhor.

Antes, só um filho tinha emprego.

Agora, o outro filho, Fatinha e o marido também conseguiram trabalho, mesmo durante a pandemia.

O que não mudou foi a disposição dela em ajudar ao próximo.

No primeiro dia ela fez oito marmitas com o que tinha em casa: arroz, feijão e carne moída com batata.

“Tinha pouco, mal para nós em casa.

Eu, meu marido e um filho desempregados.

Eu perguntei para o padre da paróquia se ele me ajudava e ele me ajudou com o dinheiro para comprar o gás e começou.

Eu tinha pouco mesmo, só para casa.” A partir daí a corrente de solidariedade criada por Fatinha foi ganhando elos maiores e mais fortes.

Os frequentadores da Paróquia Nossa Senhora Aparecida e São Roque ajudavam com doações de arroz, feijão e outros alimentos.

“Foi aparecendo verdura, uma amiga trouxe marmitex que não estava usando.

Eu pensei ‘vou dar a comida nas vasilhas de sorvete’.

E daí em diante foi aparecendo doação” recorda Fatinha.

Alimentos da marmita são doados por amigos e frequentadores de paróquia de Mogi das Cruzes Maria de Fátima Paulino/ Arquivo Pessoal O resultado se multiplicou para os moradores que ficavam pela Vila Estação.

Atualmente, ela distribui de 10 a 15 marmitas por volta de 12h, todos os dias.

Ela destaca que muitas das pessoas que moram nas ruas do bairro são dependentes químicos.

“Pessoal da rua tem dias que não procura alimentação.

Às vezes chegam 14h, 15h, perguntando se tem comida”. Virada no meio da Pandemia A família vivia com um salário mínimo que um dos filhos de Maria de Fátima recebia por trabalhar em um restaurante.

O dinheiro era usado para alimentação, pagamento de contas e prestação da casa.

Ela era conselheira tutelar em Mogi das Cruzes, mas o mandato terminou em janeiro e desde então estava desempregada.

“Já estava desesperada pela falta de emprego, ficava em oração”, conta.

Fatinha diz que eles entregaram vários currículos e ninguém chamava.

“Quando a pandemia começou pensei que acabou.

Quem tava empregado foi mandado embora.” Fatinha conta que ainda em março o marido foi chamado para um emprego na área de serviços gerais.

Depois foi o filho que conseguiu um emprego em um supermercado no Distrito de Brás Cubas.

Em abril, ela foi indicada para trabalhar como educadora social em um abrigo da Prefeitura para pessoas em situação de rua, que começou a funcionar em uma escola no distrito de César de Sousa por causa da pandemia.

“Deus abençoou tanto que os alimentos vieram e tão vindo, assim como os empregos.” Com todos empregados, exceto a filha caçula de 13 anos, a renda da família saltou para quatro salários mínimos mensais.

Mesmo trabalhando, Maria de Fátima não deixa os moradores em situação de rua do bairro sem comida.

Ela trabalha por escala e nos dias que está no serviço conta com a ajuda da nora e de uma vizinhas que preparam a comida e distribuem as marmitas. Periferia e o novo coronavírus Fatinha observa que a pandemia não mudou muito a rotina de quem vive na Vila Estação.

"É Deus mesmo porque vejo que o povo não se preocupa não.

O bar está aberto e cheio de gente.” Ela observa que como as casas são pequenas não sobra espaço para as crianças.

"Às vezes é sem quintal e as crianças vão para a rua." Os cuidados com higiene e limpeza ganham o reforço de um projeto social chamado Árvore da Vida.

Ela afirma que os voluntários do projeto levam os materiais para quem vive no local.

E o desemprego, pelo menos para os vizinhos mais próximos, também não chegou tão forte.

“A maioria aqui trabalha nos supermercados de Brás Cubas.

Foi bom nesse ponto que mercado não fechou.” Initial plugin text
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